Artesanato de Heloisa Crocco

 

No start, Heloisa criou o Projeto Topomorfose – Topo (o topo do corte no tronco/as entranhas), Morfose (transformação) – a partir de um profundo estudo dos veios da madeira, que se definem no calor e no frio: mais escuros e macios no verão, quando o tronco está crescendo; mais claros e rígidos no inverno, quando a madeira hiberna. Ela estudou as características de diversas espécies nativas do nosso privilegiado território, estabelecendo padrões, reconhecendo origens visuais no artesanato indígena e popular. Foi estudando também cortes e composições com pequenos pedaços de madeira, pintando, desenhando, criando texturas e experimentando técnicas. Foi fazendo aplicações em objetos, carimbos, móveis e revestimentos até painéis e murais. Em padronagens, já reúne um grande acervo, sempre nos tons naturais associados à madeira, aplicadas em cerâmica, louças, têxteis, cartonagem, couro e móveis. Várias foram desenvolvidas também como matrizes para linhas de produtos de empresas: Tok & Stok (roupas de cama, xícaras e panelas), Vista Alegre (louças), Personal Paper (papelaria), Arte Nativa Aplicada (tecidos), entre outras.

Seu trabalho ganhava cada vez maior visibilidade e reconhecimento. Chegou um convite de Ouro Preto, em Minas Gerais, para resgatar o sentido do artesanato com pedra sabão, uma arca perdida. “Na terra de Aleijadinho e com toda aquela riqueza arquitetônica, os artesãos esculpiam Cristo Redentor, Buda, pirâmides… Passamos a explorar as referências da paisagem urbana para esculpir na pedra-sabão e floresceu um artesanato plenamente identificado com a história local”, explica.

A repercussão não tardou e Heloisa criou com outros artistas o Projeto Piracema de Design para o

desenvolvimento de produtos e materiais gráficos. Ela passou a levar seu legado Brasil afora, com vários trabalhos para a revitalização do artesanato popular. Sempre explorando, vivenciando o meio, a cultura de cada lugar aonde vai para capacitar, despertar os artesãos.

Para novos conceitos. Trocando experiências com eles, aprendendo modos e olhares, identificando a fortuna local – arquitetura, cores, geometrias, fauna, flora, sons, escrita, etc. – para que os artesãos a enxerguem e, assim, a valorizem. Nesse processo acontece um encontro, o que torna possível desenvolver em conjunto novos padrões de design para os objetos que serão criados – durante e depois – com as matérias-primas, obviamente, locais.

“Quando se busca fora das origens, não te pertence, não se encontra o significado. Já quando tu olhas para o que é teu, para a tua origem, a compreensão é tal que tu te aproprias e não deixas ninguém mexer, nem estragar”, diz Heloisa.

Assim aconteceram os projetos Vivência, em Marajó, com argila, couro, madeira, sementes, palha da costa, fios e miçangas em bordado; o Mão Gaúcha, com lã, em Bagé (esquila, lavagem, carda e fiação para confecção de mantas e roupas), fibras vegetais na Serra gaúcha (palha de trigo, principalmente, trançada como pelos imigrantes italianos), couro e argila em diversas cidades, materiais tão caros ao gaúcho, entre outros. O resultado é um artesanato inventivo, pujante, vivo!

As ideias se multiplicavam e Heloisa desenvolveu novas técnicas. “Fui buscar as origens do gaúcho, com todo o seu aparato de trabalho no campo, como os itens de montaria, o laço, o relho”, conta, explicando que assim nasceu uma linha de produtos para a Altero, com puxadores de móveis em couro trançado dentro do metal. E ela explorou também as cercas típicas das fazendas no Pampa para montar painéis e tramas, expondo recortes das laterais e miolo – desconstruídas as estacas de seus fios de arame liso e farpado, sobressaem os buracos esculpidos pelo tempo e o vento – às

pontas irregulares.

Seu projeto mais recente é com o filho Thomaz: Casa Jamur (cogumelo, em indonésio, nome da produtora de vídeo internacional de Thomaz), um espaço de vivência espiritual e estímulo à vida saudável. Resgataram uma casa de 111 anos no interior de Santa Catarina e a montaram  novamente na praia do Silveira, reaproveitando toda a madeira e preservando a história da moradia, reinventando os espaços. Thomaz é designer visual e já rodou o mundo – chegou recentemente da Colômbia, onde filmou a segunda etapa do projeto Rekombinando, com um grupo de surf que leva história, artes e educação ambiental pela América Latina. Ele idealizou sua vida junto ao mar, pois ama o surf, se fortalece na energia da água e da natureza e mora no Silveira. A proximidade com a mãe, no entanto, se sustenta independentemente de distância física, pois reside não só no vínculo afetivo como também no artístico. Eles já fizeram outros trabalhos juntos, como uma coleção limitada de pranchas de surf, com visual arrojado em diversos modelos com padrões dos veios da madeira. Os mesmos vínculos se estabelecem com o filho caçula, Vicente, o Vico, chef de cozinha. Depois de estudar gastronomia na Alemanha e trabalhar por mais de uma década na Europa, instalou um laboratório experimental de culinária no Crocco Studio, com contêineres e um pergolado rústico e sofisticado, inspiradíssimo. Ele recebe para eventos com receitas criadas para encorpar o sabor enclausurado na essência dos alimentos. As mesas coletivas são arrumadas pela mãe com manifesto design. Mas Vico viaja a maior parte do tempo pelo Brasil e o exterior a trabalho. Atualmente está em Paris, a convite da chef Morena Leite, criando um cardápio Sabor Brasil para o restaurante do Museu do Homem. Os chocolates que esculpe com padronagens do projeto Topomorfose fazem sucesso por lá.

Os três sempre estiveram juntos, se acompanham de perto pelo whatsapp, por vídeos, por e-mails, dialogando, vibrando com novos trabalhos e conquistas, aplacando saudades. Ela segue produzindo, garimpando agora dentro do ateliê, descobrindo materiais esquecidos, reaproveitando e germinando novos frutos. Heloisa é como a árvore que oculta raízes vitais, nutridas por veios de água invisíveis, que irrompem energia para sua natureza, sábia e audaz, vicejar a céu aberto a cada nova fase de vida. Aos 67 anos, linda e elegante, está sólida em sua casa studio de pinus com os nós aparentes, que também conta uma história como árvore. Agora está finalizando a construção de um recorte do Crocco Studio fora do Brasil. Lá mergulhará no silêncio para revisitar, organizar e

catalogar seu notório fazer: um Patrimônio.

O trabalho de Heloisa com revitalização de artesanato popular repercutiu também no exterior e ela foi convidada, em 1985, pela Universidade de Los Andes, na Colômbia, para dar um curso de design têxtil. Foram 10 anos, com incursões anuais, em que identificou as origens da arte pré-colombiana para desenvolver uma coleção em tramas e texturas com este argumento. Em 1997, coordenou o

Manos del Uruguay, instituição de artesãs da lã no Uruguai. Em um ano, resgatou com o grupo a referência de identidade local – fauna e flora ganharam destaque e também um baralho em couro feito pelos índios (herança espanhola do jogo de cartas) – para desenvolver uma coleção que fizesse frente à competição globalizada. O grupo se fortaleceu e cresceu, hoje são 18 cooperativas com 800 mulheres trabalhando, com vendas para Nova York, Milão e Tóquio. O projeto Topomorfose recebeu o primeiro prêmio em Revestimento, no 8º Salão de Design Museu da Casa Brasileira/SP e Destaque em Design (três vezes) pela Associação Francisco Lisboa/RS. Ainda do Topomorfose, Menção Honrosa no 13° Prêmio Design Museu da Casa Brasileira/SP para o Armazém da Tigela Cereal; Prêmio na categoria Mobiliário; Prêmio de Exposição individual no 26º Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte/MG – O Brasil Amanhã, no Museu de Arte da Pampulha, e os selos Design Excelência Brasil e iF Design Award para a coleção de pranchas de surf com o filho Thomaz. Heloisa tem murais no Hilton Dubay, nos Emirados Árabes; no Hotel Caesar Guarulhos, em São Paulo; no Hospital Beneficência Portuguesa, em Fortaleza e Recife; na maternidade do Hospital Moinhos de Vento, no novo endereço administrativo da Lojas Renner, no edifício Iguaçu, da Smart

Arquitetura, e totens em empreendimentos da Cyrela Goldsztein, em Porto Alegre. Participou de várias exposições coletivas, salões e bienais na Alemanha, Áustria, Hungria, Holanda, EUA, França, México, Uruguai e Brasil.

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