Heloisa Crocco na Revista Saccaro Casas

O ambiente doméstico era caloroso e criativo, com a casa quase sempre repleta de parentes do interior que vinham a Porto Alegre para tratar da saúde – o pai, médico, um porto seguro da família – ou apenas visitar. A mãe, avó e tias cozinhavam e costuravam muito, reaproveitando e reinventando roupas,
desconstruindo-as até voltarem a ser tecido receptivo a novos moldes. Heloisa passou pela Escola Técnica Ernesto Dornelles, o Instituto de Belas Artes e logo enveredou pela arte têxtil. Era a época do boom da tecelagem.

Frequentou os cursos de tapeçaria de Zoravia Betiol, que já era reconhecida e estava voltando da Polônia, e de Elizabeth Rosenfeld, um nome referência do artesanato na Serra gaúcha.
Em 1970, formou-se em Desenho pelaUniversidade Federal do Rio Grande do Sul. Fez cursos de criatividade com Tom Hudson, um mestre do Cardiff ’s College of Art of London (Inglaterra): “Aquilo foi revolucionário, especialmente para aquela época. Imagina passar uma tarde inteira só assoprando pó colorido e observando as formas que tomava”, relembra Heloisa. Em 1985 buscou especialização em artes plásticas com o Suportes Científicos e Práxis, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, estudando os porquês, os filósofos – e aí se pensou no mundo. Ao concluir o curso, todo o seu universo entrou em movimento, em contestação, era a hora de se definir no mundo.
Para tamanha jornada, encontrou o auxílio do arquiteto e amigo Zanine Caldas, que a conduziu em uma viagem para a Amazônia. “Ele era um bruxo da floresta”, diz Heloisa, sintetizando a noção espiritual e profissional dele com a mata. No Km 0 da Transamazônica, em Imperatriz, ela presenciou a derrubada das árvores, verdadeiras “catedrais” arrastando tudo na passagem até o solo. Catou sementes, cascas e cipós abatidos, mas sobretudo olhou para dentro das árvores, para o miolo dos troncos no topo do corte, todo formado de anéis de crescimento. Voltou a Porto Alegre e sua carga chegou de caminhão. Ao contemplar os resíduos da floresta, percebeu que não estava ali a matéria-prima para o seu fazer. Ateou uma fogueira, que, em vez de queimar sua busca, lhe clareou o caminho, e ela enxergou o que olhara dentro das árvores.
Apreendeu os anéis de crescimento dentro de si mesma: sentimentos e conhecimentos interpenetraram-se. Heloisa começou o seu fazer e tornou-se ela própria um processo integrado de transformação, ao desenvolver uma carreira de arte traduzida em uma incansável busca das origens, de todo o potencial oculto em cada material, em cada cultura, em cada comunidade por onde já espalhou generosamente o saber conquistado.

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2 thoughts on “Heloisa Crocco na Revista Saccaro Casas

  • 28 de setembro de 2017 at 17:18
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    Sou muito fã do trabalho da Heloisa, meu primeiro contato com o trabalho dessa artista foi vendo o programa da GNT Casa Brasielira, que conta um pouco do seu trabalho e da suas experiencias! Acho fantástico a reprodução de elementos da natureza em nosso dia a dia, trabalho que ela faz é simplesmente maravilhoso! Ainda quero ter o prazer de conhecer a Heloísa e visitar sua casa pessoalmente! Parabéns!!!

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