PAUSA PARA RELAXAR

Luxo é uma palavra associada ao prazer. E imagino que cada um tenha a sua interpretação do que luxo e prazer significam. Vou tentar explicar aqui o que eu considero luxo nos dias de hoje. Vivo neste país continental, conectado ao mundo pelas vias da modernidade, cheio de possibilidades de deslocamento e de comunicação com o exterior e um pouco desconectado dos prazeres essenciais de ser brasileiro.

O que considero essencialmente luxo no Brasil é a luz, o espaço e a natureza exuberante que temos. De norte a sul são quilômetros de surpresas, uma variedade enorme de paisagens, de climas, de biomas e de gente. Pois eu encontrei o luxo ao conhecer a Bahia da Costa do Descobrimento, e me surpreendi com a possibilidade de contemplar as maravilhas das nossas praias em pleno 2017, praticamente como um navegante europeu em 1500. Me explico. Apesar dos milhões de turistas que povoam os nossos destinos-estrela, ainda existem praias praticamente desertas neste Brasil, onde alguns sonhadores construíram pequenos refúgios paradisíacos, em sintonia com o meio ambiente.

Lugares difíceis de chegar e impossíveis de sair às pressas. Lugares para ficar, contemplar, para desacelerar de verdade. Lugares para se entregar ao prazer de se estar no Brasil. Minha experiência foi neste sul da Bahia, no pequeno trecho entre Trancoso e Corumbau.

Alguns poucos quilômetros do nosso imenso litoral que nos transportam pra outra dimensão. O caminho pra se chegar a Corumbau por terra é realmente uma aventurinha, e tem uma parada obrigatória pra entrar no clima desta Bahia mansa, que é a praia da Caraíva. De Trancoso, são aproximadamente 100km de estrada até lá, sendo que os últimos 40km são de estrada de terra. Pode-se alugar um carro ou contratar um, para deixá-lo na margem norte do rio Caraíva. Dali, canoas fazem a travessia para o centro da vila. E na Caraíva você se sente aquele navegador europeu recém desembarcado da sua nau.

A vila é banhada pelo rio e pelo mar. Você pode escolher onde prefere tomar sua água de côco, na sombra de uma castanheira ou das barracas coloridas instaladas à beira-mar e à beira-rio. Vale a pena dar um passeio pelo centro da vila também. As ruas da Caraíva são todas de areia branca e fofa. Veículos motores são proibidos, mas você pode usar o serviço de taxi-carroças, puxadas a cavalo, para se deslocar. Outra curiosidade local que é para mim um verdadeiro luxo: todos os fios de eletricidade estão enterrados e não existem postes de iluminação pública, uma exigência da comunidade. A luz da rua é a do sol, ou a das estrelas e a da lua.

RUMO A CORUMBAU

Da Caraíva até a praia de Corumbau, que em Pataxó significa “longe de tudo”, são 12 km pela areia, que podem ser percorridos à pé ou de bugue. O serviço de bugues pode ser agendado através das pousadas e é um passeio que vale pelo visual lindo. Uma extensão enorme de praia deserta, com um mar azul turquesa de um lado e de uma vegetação viçosa do outro. O percurso perfeito pra você se adaptar ao ritmo local. Mas se preferir, você pode ir de barco, em um pequeno avião ou de helicóptero.

Quando chegamos à ponta de Corumbau, mais uma travessia nos espera. São poucos minutos de canoa até a outra margem, onde o motorista da pousada nos recebe, e mais uns poucos minutos por uma estradinha de terra até nosso destino. Corumbau tem um pequeno centro, com igrejinha, barracas de praia, alguns restaurantes e um comércio. Depois desse centrinho, uma estrada estreita de terra, paralela à praia, leva você às pouquíssimas propriedades particulares e discretas que oferecem alojamentos exclusivos.

O hotel Vila Naiá talvez seja o mais especial de todos, o perfeito exemplo do luxo não ostensivo. Precursor do luxo sustentável, e eu diria também que é o esplendor das pousadas da Bahia. Um presente que Renata Mellão, a proprietária da fazenda, divide com seus hóspedes desde 2004. Ao chegar, longas passarelas de madeira rodeadas por um jardim de plantas nativas desenham o caminho até a recepção, onde somos recebidos com água de coco fresca e uma introdução ao nosso pequeno paraíso. Um conjunto de chalés de madeira, semelhantes às casas de pescadores da região, compõe as dependências da pousada.

São apenas oito habitações, recheadas de todo o conforto contemporâneo e decoradas com a mescla perfeita entre o que há de melhor do design e do rústico essencial. A luz é mansa, o silêncio é absoluto e a brisa do mar corre por dentro dos espaços, lembrando que estamos a poucos passos da areia. A privacidade é total, o serviço é extremamente gentil e discreto, e a sensação de liberdade é imensa. São 50 mil m² de natureza praticamente intocada, em que predominam os coqueiros e amendoeiras, e onde nos sentimos como hóspedes exclusivos.

Cerca de dois terços dessa área foram transformados em Reserva Particular do Patrimônio Natural em 2002 , regularizada e gerida pelo Vila Naiá, com inspiração nos critérios de proteção das reservas públicas. A propriedade ainda conta com fontes renováveis de energia, realiza a compostagem dos resíduos orgânicos e possui horta e viveiro.

VIDA DE SONHO

Tudo é pensado para fazer o hóspede entrar em sintonia com o ambiente. Os horários das refeições são extremamente elásticos, assim como o local onde elas são servidas. Você escolhe onde, como e o que quer consumir, dentre as opções de um cardápio de drinks, petiscos e pratos deliciosos, preparados na hora por uma equipe atenta e cuidadosa.

Uma piscina refrescante está à disposição para os momentos de preguiça de caminhar até a praia, um Centro de Educação Ambiental está instalado em uma das construções do complexo pra quem quiser conhecer mais sobre o assunto, assim como um viveiro de mudas nativas e duas trilhas ecológicas. Para se chegar até a praia, basta sair por um portãozinho a poucos metros dos chalés e atravessar a rua de chão batido. A praia é absolutamente espetacular. São 15 km de areia branca, mar calmo e praticamente ninguém pra perturbar seu relax. Em frente à pousada, na beira da praia, estão 8 cabaninhas brancas, cada qual com seu par de camas com colchões, toalhas de banho e travesseiros à sua espera. E você recebe no check-in um rádio pra se comunicar com o staff.

Águas de coco, drinks e aperitivos podem ser solicitados e chegam com um sorriso simpático em poucos minutos. Você leva algum tempo pra acreditar que aquela praia deserta, com rádio e toalhas brancas, realmente existe. A sensação é de que voltamos aos tempos de Pedro Álvares Cabral, se não fosse o rádio, é claro. Eu realmente acredito que é o cenário perfeito pra qualquer ser humano que queira descansar. Um dia no Vila Naiá vale por uma semana em qualquer outro lugar do mundo.

Se der vontade de se movimentar um pouco, dê alguns passos até o mar azul a sua frente e divirta-se. O mar é imenso e parece só seu!

Uma caminhada até a ponta de Corumbau também vale a pena. No transcorrer do caminho começamos a avistar pescadores solitários, alguns poucos banhistas e em cerca de meia hora chegamos a um bucólico cenário de barquinhos coloridos e pessoas tranquilas e felizes em meio a um bosque de castanheiras, tomando suas caipirinhas nas mesinhas dos bares. Mas, confesso: acho que o melhor de tudo é saber que na volta nosso paraíso particular segue deserto e à nossa espera. Uma dica para a noite: depois do jantar vá até a beira da praia e olhe para o céu. É a maior vialáctea que você pode apreciar, ou pelo menos uma das melhores desse surpreendente paralelo 17.

AO ESPELHO!

Não muito longe de Corumbau está outra maravilha da Costa do Descobrimento: a Praia do Espelho, que fica a 25km de Trancoso. No caminho entre a Caraíva e a Praia do Espelho encontram-se as falésias, que criam um cenário surpreendente e contrastam com o exuberante coqueiral da praia. Aliás, a Praia do Espelho também surpreende o visitante que passar mais do que um dia por lá com outro fenômeno da natureza: de seis em seis horas, a maré sobe ou baixa, criando piscinas de águas absolutamente cristalinas entre as rochas encravadas na areia.

Durante o dia é a diversão dos banhistas. À noite, um balé de luzinhas dança no breu, indicando a festa dos pescadores sem barco. Quem tiver intimidade com a pesca pode se munir de balde e lanterna e se esbaldar com os ouriços, polvos e outros bichos mais, que ficam ao alcance das mãos habilidosas. Outra maré que alterna entre o dia e a noite é a dos visitantes. Em função do difícil acesso e dos altos preços, o Espelho é uma praia relativamente deserta à noite e bem cheia durante o dia.

Muitas pessoas vão até lá pra desfrutar das belezas naturais até o pôr do sol. O que garante uma noite silenciosa e muito exclusiva.  Para quem quer experimentar passar a noite no Espelho, sugiro duas experiências contrastantes. As pousadas mais charmosas estão na beira da praia. Diferentemente de Corumbau, onde a praia não tem construção alguma, o Espelho tem uma faixa de areia bem larga e depois disso muitas casas, bares de praia e pousadas pontuando o caminho. Todas as construções harmonizados por um estilo parecido. Muita madeira, palha e almofadões, criando uma sensação de grande lounge com o pé na areia. E todas respeitando um espaço arejado em relação aos seus vizinhos.

Praia cheia, sim, em temporada alta e em um dia ensolarado, mas tranquila. No canto esquerdo da praia, bem próximo às falésias, encontra-se a pousada Bendito Seja, que faz parte dos Roteiros de Charme. Lá você pode reservar o quarto de frente pro mar, no térreo, e se sentir o dono da casa. Ao abrir a porta do seu quarto, você terá a sua varanda, um extenso gramado convidativo, a areia e o mar. E de novo, o silêncio.

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